História Clínica

Paciente masculino, 42 anos, negro, compareceu ao ambulatório de oftalmologia com queixa de redução progressiva da visão, mesmo usando óculos. No antecedente pessoal refere cegueira em olho direito (OD) pós trauma há aproximadamente 15 anos, nega hipertensão (HAS) e diabetes (DM), nega glaucoma. Nega antecedentes familiares de HAS, DM, glaucoma ou casos de cegueira.

Exames

Ao exame: acuidade visual sem correção:

  • OD: Nenhuma percepção luminosa (NPL).                                                          
  • OE: 20/400 parcial

Acuidade visual com correção:

  • OD: NPL
  • OE: 20/200 (-1,00DE – 1,25 DCIL X 170 AD + 1,75 DE)

Biomicroscopia anterior:

  • OD: leucoma corneano
  • OE: sem alterações

Fundoscopia:

  • OD: impraticável
  • OE: meios transparentes, disco óptico de aspecto regular, sem edema, rima neurorretiniana com redução total, com escavação 0,9, subtotal, mácula sem alterações, retina aplicada, vasos sem alterações.

Paquimetria:

  • OD: 475µm
  • OE:470µm

Pressão intraocular (PIO):

  • OD: 33mmHg
  • OE: 56mmHg, ambos sem medicação prévia, às 10h.

Campo visual:

  • OD: impraticável
  • OE: severo comprometimento do campo visual, duplo escotoma absoluto arqueado subtotal.

 Discussão

Suspeita diagnostica:

  1. Glaucoma avançado em OE
  2. Cegueira pós-traumática e glaucoma em OD

Conduta:

  1. Bimatoprosta 0.03% (Lumigan colírio) 1X ao dia em ambos os olhos (AO)
  2. Cloridrato de dorzolamida + maleato de timolol 0,5% (Cosopt colírio) 2X ao dia em AO.

Paciente retorna 2 semanas depois para acompanhamento, com PIO em OD 15mmHg e OE 17mmHg às 15h, com as medicações prescritas.

Ao exame de acuidade visual com correção houve melhora de 20/200 para 20/80 parcial, com visão tubular.

7 meses após o retorno, o paciente compareceu ao ambulatório para nova avaliação:

Paciente referiu piora da visão e estar fazendo uso irregular de colírios prescritos na primeira consulta, por falta dos medicamentos em rede SUS.

Ao exame de acuidade visual, com correção, manteve visão de 20/200 em OE, com visão tubular.

PIO: OD: 17mmHg OE: 21mmHg às 11h.

Conduta:  foi associado o Tartarato de brimonidina 0,2%, 2X ao dia, aos outros colírios.

Discussão: o paciente referido apresentava um glaucoma avançado não diagnosticado de longa data, percebendo piora progressiva da visão, mesmo realizando exames refrativos rotineiros com optometristas. Cursava com hipertensão ocular e já apresentava perda significativa das fibras nervosas do nervo optico do único olho funcional, com repercussão na visão, e na qualidade de vida, incapacitando-o para as atividades laborativas, iniciando perda periférica da visão sem a percepção do paciente, e evoluindo para visão tubular ao exame oftalmológico.

Com a prescrição dos colírios antiglaucomatosos, foi constatada uma pequena melhora na acuidade visual tubular e controle da PIO. É importante constatar neste paciente que, devido a córnea ser fina, há uma subestimativa da PIO real.

Apesar do controle clinico, o paciente permanece com um quadro grave de perda visual devido as lesões irreversíveis nas fibras nervosas, e que provavelmente evoluirá para a cegueira total.

Por falta de exames anteriores do paciente, ficou ainda a dúvida se o glaucoma foi adquirido após o trauma no olho direito, ou se era um glaucoma primário.

Anexo

Campimetria 23/09/ 2016: